O Movimento M’Boy é formado por artistas e pesquisadores da região de Embu e tem como proposta fomentar a produção artística, a economia criativa, o acesso à cultura, à história local e o debate sobre o real valor de seu patrimônio histórico-cultural.
Fundado no final de 2021 com o intuito de organizar um festival de artes, aproveitando o centenário da Semana Moderna de 1922 e o bicentenário da Independência do Brasil para refletir as questões e inquietações latentes do contexto cultural da cidade, do marasmo e do pragmatismo destrutivo. O festival recebeu o nome de Festival M’Boy e veio como forma materializada de nosso desejo a contribuir para algumas e novas percepções de nosso entorno, sabendo se principalmente da enorme valia deste solo e a buscar na gênesis da origem mística da cidade, as simbologias, sendo também realizado o cortejo da cobra M’Boy, símbolo da fundação da Aldeia Jesuítica e assim complementando o festival realizado desde 2022, em torno do dia 18 de julho, na data de fundação da vila de M’Boy (reconhecida pela lei …..de 2004) seguindo a hipótese proposta por Moacyr de Faria Jordão em sua obra (O Embu das história de São Paulo e sob influências da obra de Joaquim Gil Pinheiro, memórias de M’boy). Além do festival, realizamos atividades ao longo do ano e também a presença constante do movimento cineclubista em nossas atividades, o extinto CineButequinho Na Garaca e hoje se apresenta como Cineclube Bohu no núcleo do movimento.
Buscamos também estar conectados e em constante diálogo com os artistas de longa atuação no território, como Zé e Cristina Figueiredo, Ray Rodrigues, Mário Ramos, Célia Santiago, Tônia do Embu, Mestre Carlos Caçapava, Vitor da Trindade, Renato Gonda, Bola e Zé Geraldo, entre outras figuras importantes de Embu assim como notórias e seguintes gerações de jovens que nos circunda.
O Movimento busca mobilizar a população local, educadores, artistas e movimentos culturais para a construção de um cenário que nos proporcione a tentativa de aplicar o novo no modo de fazer e contribuir para uma melhor atuação dos profissionais da arte e cultura, buscando soluções, garantindo qualidade e com isso nossa contribuição na permanência da vocação artística da cidade, fazendo jus a sua história e memória, assim como o fortalecimento de uma identidade cultural que se reconhece em suas origens e que lide com as mudanças dos tempos. O Movimento parte da pesquisa, da publicação, da arte e da educação como ferramentas de comunicação e debate, para assim organizar seu público, fazendo-o ativo e proponente, colaborando nas propostas e ações.
CENÁRIO EMBU DAS ARTES
Nos últimos anos, o Embu das Artes tem passado por constantes mudanças, como o alto crescimento urbano, por fazer parte da grande São Paulo, o aumento de galpões de logística, já que a cidade se encontra entre grandes rodovias como a BR-116 e o Rodoanel, e a expansão comercial dentro e entorno do centro histórico.
São questões que por não estarem sintonizadas com o contexto histórico, patrimonial e cultural da cidade, acabam por impactar a identidade cultural de sua população. Com essa mudança desorganizada de interesses, nota-se que a arte e a cultura vem perdendo espaço em seu cotidiano, como por exemplo a diminuição significativa de galerias de arte e antiquários, o desrespeito às áreas tombadas como patrimônio, o artesanato substituído por peças industriais, a falta de incentivo do poder público e privado para a atividade artística, a carência de eventos culturais artísticos, a difícil condição de trabalho para os artistas, o que gera a necessidade de buscar trabalho em outras cidades, e o processo de esquecimento do valor histórico-cultural pela população e turistas.
O MOVIMENTO M’BOY E A TRAJETÓRIA DE EMBU
O Movimento M’Boy é formado por artistas e pesquisadores da região de Embu e tem como proposta fomentar a produção artística, a economia criativa, o acesso à cultura e à história local, e o debate sobre o seu patrimônio imaterial.
A expressão tupi-guarani “M’Boy” tem como possíveis significados: cobra preta, que é atrelado às mitologias indígenas e à lenda jesuítica de fundação da vila de Embu; o estrangeiro, relacionado aos colonizadores ou aos indígenas de outras regiões/etnias; ou ainda conjunto de morros ou de rios, que diz respeito aos aspectos geográficos da região.
Essa expressão e suas variações foram utilizadas para nomear a região de Embu das Artes, com registros datados desde a hipótese de sua fundação em 1554, que se deu através de aldeamento jesuítico dos indígenas Carijós, trazidos do Paraguai por padres e bandeirantes no séc XVI.
Mesmo após a expulsão da Companhia de Jesus do território nacional (1759) e a mudança brusca da configuração social da região, o nome M’Boy e suas simbologias permaneceram em uso até meados da década de 1930, da qual pelas mãos de Mário de Andrade,passou a se chamar Embu
No início do século XX, há um grande momento de retomada cultural e histórica, de fortalecimento da identidade cultural, por duas figuras centrais: o historiador Joaquim Gil Pinheiro e o artista modernista Cássio Rocha. Gil Pinheiro escreve o livro “Os Costumes da Roça ou as Memorias de MBoy, Etnographicas, Historicas e Etymologicas” (1912), apresentando a cultura caipira, as tradições e festas religiosas, as lendas, a vocação artística e a arte santeira, ou seja, toda memória coletiva que resistiu aos anos desde a fundação. Nos anos 1920, o modernista Cássio conhece e se estabelece na vila, mudando seu nome para Cássio M’Boy, e passa a pintar e a esculpir as lendas, tradições, simbologias e mitologias daquele povo caipira, e também dando formação artística para o povo tradicional e para os imigrantes japoneses e alemães recém-chegados na região. Cássio também foi responsável direta e indiretamente por trazer a presença dos artistas modernistas para a vila M’Boy, desde a primeira geração até gerações posteriores, desde Tarsila do Amaral até Solano Trindade.
Nos anos 1930, Mário de Andrade propõe a mudança da grafia de M’Boy para Embú, uma adaptação fonética, mantendo suas simbologias. Mário também participa intensamente do processo de tombamento patrimonial da Igreja Nossa Senhora do Rosário, assim como seu processo de restauro, sendo essa uma das primeiras ações do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, atual IPHAN).
Com a emancipação do território, que pertencia a Itapecerica da Serra, em 1958 é formalizado o nome do município como Embú. Ao longo do séc. XX há uma série de ondas migratórias que ocupam a cidade: de agricultores, de trabalhadores da grande São Paulo e de artistas. A onda artística se deu em diversas fases, desde os modernistas citados acima, como também os hippies nos anos 1960/70. Essa movimentação foi de grande importância para continuidade cultural das tradições e de novas proposições. O resgate da Festa de Santa Cruz (festa que remonta o processo catequético dos Jesuítas sobre os indígenas) teve presença da comunidade artística, sendo o escultor Sakai do Embu um dos responsáveis. E também se estabelece novas tradições da cultura popular negra, através do Teatro Popular Brasileiro, e outros movimentos. Assim, popularmente passou a se referir a cidade como Embu das Artes, e em 2011, por meio de plebiscito, passou a ser seu nome oficial.
Hoje a expressão M’Boy se faz enfraquecida na memória coletiva da cidade, assim, ao retomá-la, o Movimento pretende marcar seu ponto de partida nas origens e na trajetória da região para alcançar seus objetivos e imaginar melhores condições artísticas e culturais, fortalecendo sua comunidade artística e a identidade de sua população.
OBJETIVOS DO MOVIMENTO
O Movimento M’Boy busca mobilizar a população local, educadores, artistas e movimentos culturais para a construção de um cenário que dê boas condições para a atuação dos profissionais da cultura, garantindo qualidade para o público local e turístico, e a permanência da vocação artística da cidade fazendo jus a sua história e memória, assim como o fortalecimento de uma identidade cultural que se reconhece em suas origens e que lide com as mudanças dos tempos. O Movimento parte da pesquisa, da arte e da educação como ferramentas de comunicação e debate, para assim organizar seu público, fazendo-o ativo e proponente, colaborando nas propostas e ações.
FUNDAÇÃO DO MOVIMENTO
Fundado no final de 2021, por Viviane Neres, Marcel Moreno, Rafael Fazzion e Mathaus Woerle, com o intuito de organizar um festival de artes, aproveitando o centenário da Semana Moderna de 1922 e o bicentenário da Independência do Brasil para refletir as questões latentes do contexto cultural da cidade. O festival recebeu o nome de Festival M’Boy e acontece, desde 2022, em torno do dia 18 de julho, na data de fundação da vila de Embu, segundo a data proposta por Moacyr de Faria Jordão.
Como estratégia de preparação para o Festival, engajando público, apresentando pautas, pesquisas e suas diretrizes, o Movimento realiza durante o ano uma série de atividades: Sarau M’Boy, Aula Pública e o cineclube CineButequinho e Cine Bohu. As atividades são gratuitas e mensais, nas ruas e praças do centro histórico. E também são realizadas consultas com os artistas de longa atuação no território, como Zé e Cristina Figueiredo, Ray Rodrigues, Mário Ramos, Célia Santiago, Tônia do Embu, Mestre Carlos Caçapava entre outros.
Tanto para o Festival quanto para as ações mensais, o Movimento busca promover espaço de exposição de arte e artesanato, abrindo chamada para expositores de diferentes regiões e segmentos, garantindo um intercâmbio cultural e a economia criativa. Sendo recorrente também o lançamento de obras (literatura, cinema, videoclipes, espetáculos etc.)
Até o último festival realizado (2024), o Movimento fez suas ações de forma independente em parceria com a comunidade artística local, por vezes recorrendo ao comércio e simpatizantes para custear parte das ações.








