Antônia Aparecida Gonzaga, ou simplesmente Tônia do Embu, nasceu em 30 de junho de 1950. Filha do oleiro José Rosa Gonzaga, natural de Santa Luzia, na grande BH, Minas Gerais, e de Alexandrina Rosa Gonzaga, paulista de Porangaba, na região de Botucatu, Tônia nasceu em um hospital de São Paulo, e devido a complicações no parto, permaneceu por um mês numa incubadora, e seus pais chegaram a temer que o bebê não resistisse. Mas ela era forte, e teve uma longa vida, repleta de arte e história, vivida desde seus primeiros dias no Embu das Artes, sendo a primeira dos 7 filhos que seus pais tiveram.
Aos 7 anos de idade Tônia inicia seus estudos numa pequena escola mantida pelas freiras da Fundação Maria Auxiliadora, no antigo Convento dos Jesuítas, no Centro de Embu. Ali conheceu a Madre Odette de Souza Carvalho, que fundou e mantinha no local um Museu Sacro, que deixou Tônia muito impressionada desde menina, já que ficou fascinada com as imagens de santos feitas em terracota, obras de padres e indígenas que habitaram a cidade séculos atrás. Madre Odette contava a história de Embu aos visitantes do Museu, tendo sempre a menina por perto; Tônia ouvia tudo com atenção e moldava dentro de si aos poucos a artista que se tornaria com essa forte influência recebida.
Nos primórdios da Feira de Artes, as meninas que frequentavam o convento ajudaram a fazer pecinhas de presépios – o menino Jesus, os bichos, os reis magos – e as peças sobressalentes passaram a ser vendidas na porta da igreja dos Jesuítas, isso ainda nos anos 1950!
O pai de Tônia trabalhava em olarias e já despertava nela a curiosidade sobre o uso e a queimada argila, e a tudo isso se somou a presença do lendário escultor natural do Japão, Tadakiyo Sakai, que também cruzaria seu caminho, escrito por vários desígnios que se fechavam em um único ponto: a arte forjada a barro e fogo.
ARTISTA AOS 8 ANOS
Tônia tinha apenas 8 anos quando o Mestre Sakai reuniu crianças da região da Vila Cercado Grande para, ao lado de sua esposa, Sizuca Sakai, darem aulas de cerâmica. Natural da província japonesa de Nagasaki, Tadakiyo chegou a Embu antes dos anos 1950 e se dedicava à agricultura, quando conheceu o artista Cássio M’Boy – Cássio da Rocha Matos – que já vivia na cidade desde os anos 1920. Sakai passou a aprender e estudar a arte da cerâmica, e anos depois já ensinava às meninas e meninos que depois se constituiriam no conhecido Grupo Sakai, que fincou raízes profundas na futura Terra das Artes.
Tônia se recordava da primeira vez que entrou na casa do Mestre Sakai em 1958 e ficou absolutamente fascinada com as esculturas que se acumulavam ali, frutos das criações do japonês, que a encantaram tanto quanto os santos barrocos do Convento dos Jesuítas.
Enquanto Sakai modelava o barro e conversava com ela, a convidou para aprender aquela arte que mudaria sua vida, assim como a de várias crianças que passaram a frequentar o local. Na casa de Sakai, Tônia também viu pela primeira vez o escultor Claudionor Assis Dias, o Mestre Assis, amigo do japonês, e que também era ativista pioneiro da arte no Embu, vindo de Campos Gerais (MG). E assim desde menina, Tônia foi moldando sua arte e sua vivência, tornando-se a grande artista que conhecemos e aprendemos a admirar.
O primeiro grande triunfo de Tônia foi sua participação no I Salão de Artes Plásticas de Embu, realizado em 1964, e que revelou vários artistas mirins e adultos. Na ocasião Tônia já recebeu premiação por uma de suas esculturas, e tinha apenas 14 anos de idade.
NA EUROPA
Tônia ainda muito jovem realizou um sonho de morar na Europa, e em 1974, com apenas 24 anos passa a viver na França, fixando-se em Paris, onde aprimorou a sua arte e produziu muitos trabalhos em cerâmica, realizou exposições individuais e coletivas, e deixou uma legião de amigos e contatos. Mas volta a Embu em 1979 por saudades de Embu, e também ao saber da enfermidade de seu Mestre Sakai, que tinha diabetes e acabaria falecendo dois anos depois. Ao longo de sua vida Tônia Gonzaga voltou à Europa por diversas vezes.
Na volta a Embu, Tônia se casa com Tupari de Lima, também artista plástico de renome. Segundo uma reportagem da Prefeitura de Embu das Artes em 2008, quando Tônia realizou uma exposição sobre a obra de seu marido, “Tupari foi precursor da arte ecológica no Brasil. Segundo Any Colin, para ele a pena e o nanquim são um passaporte para uma viagem no universo fantástico das divagações noturnas e das lendas indígenas”. Tupari, que faleceu em 1995, também era escultor em terracota, a exemplo de sua esposa Tônia. Ele foi o primeiro e único amor de sua vida, segundo a própria artista.
SANTA CRUZ E O MEMORIAL
Tônia e Mestre Sakai também eram muito envolvidos com os Festeiros da homenagem à Santa Cruz, realizada por séculos na antiga Vila de M’Boy, um evento que pode remontar ao século XVII. A sobrevivência e continuidade da Festa de Santa Cruz, essa tradição religiosa brasileira se deve muito ao empenho de Tônia, mesmo após a morte do Mestre Sakai em 1981.
Nos anos 1970 Sakai conseguiu patrocínio para a construção do Cruzeiro da Paz e colocou sob seus pés dezenas de placas de argila com histórias e lendas de Embu produzidas pelo Grupo Sakai, que anos depois passaram a integrar o acervo do Memorial Sakai, construído nos anos 1990, e que foi administrado por muitos anos por Tônia do Embu.
Mas no final dos anos 1990, por sérias divergências com o governo local, Tônia se afastou de Embu por cerca de três anos, fixando-se em Santa Fé do Sul, no interior paulista, onde ensinou uma série de moradores locais, que passaram a desenvolver a arte da cerâmica, como a hoje consagrada artista Nalva Facione, que mantém um atelier na cidade há mais de 20 anos. Com o novo governo de Embu, do prefeito Geraldo Cruz, Tônia voltou à cidade em 2003, e com a ajuda de amigos artistas, recuperou as placas de argila destruídas na administração anterior, e
passou a administrar o novo espaço do Memorial Sakai.
Tônia passou as últimas décadas de sua vida dedicada à produção de sua arte e ao ensino da escultura em cerâmica para gerações de artistas no Memorial Sakai, e a existência desse Museu-Escola hoje somente se deve à sua tenacidade amor e empenho, mesmo na adversidade.
Em uma de suas entrevistas Tônia de Embu resumiu seu amor à arte e à vida: “Eu acredito muito nisso que chamo de direcionamento espiritual, esses dedos mágicos que vão moldando a gente, que vão elaborando cada momento de nossos destinos como se fôssemos uma obra de arte. A vida vai nos conduzindo para locais que vão pouco a pouco tecendo o sentido de nossas vidas, ressignificando nossas existências”.
Antônia Aparecida Gonzaga, a nossa eterna Tônia do Embu faleceu devido às complicações de um câncer, aos 75 anos de idade, em 3 de setembro de 2025. Ao lado do Cruzeiro da Paz e do atual Memorial Sakai foi erigida anos atrás a pequena Capela de Santa Cruz, onde Tônia recebeu as últimas homenagens da comunidade embuense.








