Á Lua no Carrossel por Unbrella Diaz

INTRODUÇÃO por Zimi mermann
O ar pesado da aldeia cheirava a poeira antiga da fuligem onde outrora as pedras dos paralelepípedos reluziam sob a chuva e o murmurar ecoava pelas
alamedas, restava apenas o silêncio trincado de uma terra devastada. M’Boy tornara-se uma cicatriz aberta no mapa, um espectro do lugar que um dia acolhera mestres, entalhadores, músicos, pintores, poetas, loucos,malucos…
E então ele surgiu, cortando a névoa cinzenta do final de tarde.
Unbrella Diaz via sem pressa, a silhueta esguia destacada contra os escombros do largo. Sob o braço, trazia seu artefato inseparável: um guarda-chuva de copa ampla, feito de um tecido denso e escuro cujas hastes metálicas rangiam. Não chovia, mas a sombrinha de Unbrella varria as ruínas em busca de sinais de vida, foi quando um som diferente rompeu a aridez do ambiente. O estalo seco de um cinzel
contra a madeira.
Afastando uma cortina de poeira, Unbrella encontrou a resistência. Sob o teto meio caído de um antigo ateliê, três figuras trabalhavam em silêncio absoluto. Um velho esculpia um bloco de cedro queimado, transformando a madeira morta em feições humanas cheias de
dor e esperança. Ao lado dele, uma jovem misturava pigmentos feitos de terra e carvão para cobrir uma parede rachada com cores vibrantes, enquanto um rapaz dedilhava um violão de cordas gastas, tirando do instrumento uma melodia remendando o ar, no acorde em menor,
Unbrella parou à entrada. Com um movimento lento e ritmado, abriu seu guarda-chuva com o som do tecido se esticando sem dizer uma palavra sequer, pois no mundo devastado daquela Aldeia, a presença valia mais
do que o verbo.. Sob aquela copa protetora, a poeira parecia não cair, o frio parecia não tocar a pele e a arte ganhava o espaço sagrado que lhe fora roubado. Enquanto a tinta fresca ganhava vida na parede e o som do violão ecoava mais alto, Umbrella Diaz permanecia firme, o guardião silencioso que garantia que, mesmo sobre os escombros da aldeia, a beleza se recusava a morrer.
Em seus relatos, simplesmente ecoou o que as pedras já sabiam por séculos, o que a cobra esconde entre seus segredos no subterrâneo do que uma dia foi

Á Lua no Carrossel
Habito-me
Como quem ocupa os coretos dessa praça,
Por isso essa cara de piquete desleixado,
Mirando mirrados protestos entuchados
Num código morse chapiscado aos olhos
Que se embargam nas catracas metralhadas palavras adentro.
Meus braços são toscas barricadas
Cruzadas sobre esse santuário entrecortado,
Esse brando brado roucamente iluminado
Pelos postes que tossem poemas,
Nos versos intermitentes do vislumbre
Onde ab-rogo essa solidão inchada peito afora,
Destrinchada na trincheira do mundo!
Me engasgo com a frieza que escarro na boca da ignorância, A minha sagrada fiança, a ânsia de ser a mudança.
Ainda correm no meu sangue
Todas as culturas contrariadas,
Sumariamente canceladas
E estorradas sob as zapatas dessas lojas!
Minha existência é uma carta aberta de repúdio à censura!
Abaixo de mim assinam as sinas de todos os povos catequizados,
Todos os orişas sincretizados,
Todos os sambas proibidos, girando marteladas berimbaus adentro ,
Todas as línguas amputadas pelas mordentes mordaças
Que tanto amortecem a mortalha que me tecem pra não sonhar!
Todos os corpos surrupiados
Pra ocultar provas da monstruosidade humana!
Todos os hippies que aqui semearam
Essa raiva imprescritível
Aos olhos de águia incrustados
Na cara dessa liberdade desfigurada!
Todos os renomes empilhados
Sobre as obras dos artistas que morreram à míngua
Extirpados como ínguas no anonimato!
No meu rosto,
O jenipapo trançado é marca de guerra
E de euforia!
Soo a tempestade invocada
No transe desse barra-vento,
Gritando em minhas resistências
A certeza de estar do lado certo da história!
A cada faixa arrancada das minhas mãos,
Irrompem revoluções sustenidas nos atabaques!
Na surdina das ações, cresce em mim a insurgência
Da memória coletiva que vivo,
Sendo ornamento transpassado
Na garganta do sistema!!!
Unbrella Diaz










