Práticas patrimoniais em Embu das Artes; a arte da ante memória como projeto político

por Marcel Moreno
O centro antigo de Embu das Arte, na amplitude de seu valor histórico, se inicia através do aldeamento jesuítico que se estabelece com a doação da fazenda de Bohi, mais tarde M´Boy, aos padres da companhia de Jesus, por seus proprietários Fernão Dias Pais Leme e sua esposa Catarina Camacho, processo este que durou de 1624 a 1668. Já estabelecidos e fixados em M´Boy, os jesuítas construíram a segunda edificação da capela nossa Senhora do Rosário, hoje museu de arte sacra, aplicando a catequese aos indígenas da etnia Guarani, originários do Paraguai, estabelecendo na gênesi da aldeia o sincretismo cultural que se estabelece através da convivência entre indígenas, padres e colonos, marcando as tradições e práticas que passariam pelos séculos, em um processo de adaptação do período colonial, dos indígenas ao caipirismo do caboclo da roça, de agricultores, imigrantes, uma terra que tem a arte como pilar de origem, também caracterizada socialmente por crenças e misticismos estabelecidas no imaginário popular através das lendas e contos populares ao longo do tempo e que se passam em sua maioria neste espaço físico que chamamos hoje de centro histórico. Ao que nos convém, como finalidade, é demonstrar a importância deste centro histórico expandido de Embu das Artes, tratando os valores que se apresentam além de um conjunto araquidônico e natural que dialoga diretamente como este passado longínquo e frágil memoria, mas tratarmos também a paisagem enquanto um processo cultural e identitário nas diversas camadas históricas que se apresentam ao longo do tempo sob a edificação da Igreja Nossa Senhora do Rosário, mais um anexo como residência dos padres e a casa dos indígenas e futuras gerações que se desenvolveram no entorno e fora dele.

Esta fotografia da aldeia de M´Boy da década de 1940, tirada em um ponto onde hoje é localizada a Br 116, traz a ideia geográfica deste processo do aldeamento e crescimento demográfico ao longo de sua evolução, assim como esta imagem a seguir demonstrando demograficamente as áreas envolto.

A emancipação política de Embu no início da década de 1960 traz o início do progresso nas políticas públicas, proporcionando à cidade condições para o melhoramento de setores públicos, favorecendo na divulgação dos artistas locais por meio da criação dos Salões de Artes Plásticas e pelo apoio dos poderes públicos no incentivo às manifestações folclóricas e artísticas locais, somados à construção da rodovia federal Régis Bittencourt. Consequentemente, o conjunto dessas ações propiciou o expressivo aumento de visitantes e turistas. Esta nova realidade que fizeram os antigos casarões do centro histórico serem transformados em estabelecimentos comerciais, alterando os espaços internos das edificações e consequentemente uma ausência do pensar em proteger esses bens ao passar do tempo.
Muito impotente ressaltar que a vida artística de cidade se refere a sua origem nos tempos coloniais, como dito acima, onde a promoção artística da cidade fora construída pelos artistas, desempenhando assim um papel fundamental para a criação de novas possibilidades, que através de Cássio M´Boy abre-se nova fase na cidade e o que chamamos de identitarismo.
Em Embu podemos observar um modelo muito particular, mas também comum em outras regiões com centros antigos, o fachadismo (priorizar as fachadas de prédios históricos), onde se relaciona diretamente com a economia local, ou seja, argumentação pela conservação do bem cultural e, assim, convertê-lo em produto turístico, enquanto produto a ser vendido para ser consumido rapidamente. No caso dessa premissa turística, este ambiente bucólico remete no sentido das visitas aos atrativos culturais, principalmente voltadas aos bens edificados, são motivadas enquanto entretenimento e não no aspecto da conservação efetiva de valor histórico e cultural pra cidade, sendo estas nossas manifestações culturais materiais ou ,sendo objetos de contemplação para o turista apenas, descentralizando a grande problemática do aspecto de sua conservação enquanto bem cultural que dialoga diretamente com sua história, ou seja, apenas indica como um “negócio das imagens”, onde a conservação se propõe a fabricar imagens arquitetônicas como solução de sobrevivência destes conjuntos, sendo em sua essência uma ação contraditória, pois ao se preocupar apenas com a estrutura de fachadas, perde se o valor cultural estabelecido. No caso específico de Embu, esta prática atrelada ao turismo local também já não mais dialoga com as necessidades patrimoniais mediante ao acelero da descaracterização que seu centro antigo passa. É possível observar que a tomada do espaço pelo poder público e incentivado pelas práticas da especulação imobiliária cada vez mais faminta, determinam as devidas modernizações e alterações e assim dá-se uma política pública que demonstra o total desapego a cultura histórica viva de Embu que vai se desmantelando gradativamente, confirmando sua frágil memória, onde interesse cultural edificado está enraizado no campo do conhecimento, da história, da memória e da identidade e as práticas comerciais e políticas andam ao lado contrário.
Aqui abaixo, como um aperitivo para os próximos textos a se desenvolver o prognostico desta desconstrução de memória e identidade em Embu, é possível observar esta imagem do trabalho de ANGELA MARIA, em (Patrimônio Arquitetônico e Urbano: reflexão sobre os parâmetros de intervenção e sua prática nas edificações protegidas do centro histórico de Embu das Artes, de 2014 que as mudanças ao longo do tempo, excluindo qualquer política de preservação histórica e cultural, eleva-se ao mais alto grau, não somente a desconfiguração visual, mas também a construção social estabelecida ao longo dos séculos e retirando o direito a seu cidadão pertencer e conhecer sua história local ou até mesmo se reconhecer nela ( imagem 3 abaixo)

A identicação não se relaciona apenas como as fachadas ou fenômeno do fachadismo como apontado, mas sim expandir o diálogo e ações efetivas para que o tema patrimonial de Embu seja elevado ao seu grau de importância enquanto rg desta localidade quinhentista.
É muito importante ressaltar aqui que quando abordamos o centro antigo, ou seja, aquele que circunda o bem tombado, não se limita somete à aquele espaço físico, mas sim a toda expansão ao seu entorno, para além das delimitações limitantes do museu de arte sacra. O IPHAN reconheceu, por meio da Portaria nº 3, de 13 de janeiro de 2023, que dispõe sobre a poligonal de entorno da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a importância das relações espaciais historicamente estabelecidas entre o bem tombado e os Largos dos Jesuítas e 21 de abril, e as principais vias de acesso ao bem tombado, pensando assim nos espaços fundamentais para a manutenção da ambiência. Foi tardia o conceito de preservação e critérios de intervenção para a área do entorno de Embu, demorando a reconhecer o largo 21 de Abril como área de interesse de proteção, sendo uma conquista importante da classe artística via feira de artes e artesanato, as manifestações culturais de seus artistas locais e trabalhos acadêmicos realizados pelo museu de arte sacra e outros de grande interesse, colocando esta região do largo como valor histórico. Mesmo sob proteção, o largo 21 de Abril voltou a perder seu valor histórico mediante as descaracterizações da ambiência e fachadas, além de uma reforma em 2016 que descaracterizou para sempre seu formato bucólico com reforço do plano diretor de 2012, onde se desconsidera tal importância em âmbito de preservação e conservação. Abaixo estão as delimitações das poligonais de proteção. É importante considerar que o conjunto arquitetônico de Embu não é tombado, mas de valor histórico a partir do bem tombado, no caso do museu de arte sacra e anexo dos jesuítas. ( imagem 4 abaixo)

Portaria Iphan n 3, de 13 de janeiro de 2022, dispôs sobre a delimitação da poligonal e critérios de preservação ao bem tombado, assim como se apresenta:
Art. 3º A poligonal de entorno do bem tombado fica dividida em 3 (três) setores estabelecidos conforme suas características e seus critérios específicos, assim caracterizadas:
I – Setor A – de Manutenção da Ambiência: tem como função garantir as relações espaciais historicamente estabelecidas entre o bem tombado, os Largos dos Jesuítas e Vinte e Um de Abril e as principais vias de acesso ao bem tombado: Rua Boa Vista, Rua Nossa Senhora do Rosário, Rua Joaquim Santana, Travessa Marechal Isidoro Lopes, incluídas as faces de quadra e o logradouro;
II – Setor B – de Controle da Ocupação 1: tem como função a manutenção da ambiência do bem tombado por meio do controle da volumetria das edificações e da geometria das coberturas, de forma que se possa percorrer os trajetos de acesso ao bem tombado a partir de uma fruição adequada à escala do bem tombado, garantindo, com isto, as qualidades espaciais observadas no plano de fundo do bem tombado, e correspondendo ao quarteirão de grandes proporções situado entre a Rua da Emancipação, o ribeirão da Ressaca, o ribeirão da Ponte Alta, a Rua Padre Belquior de Pontes, a Rua Siqueira Campos, a Rua Boa Vista, o Largo dos Jesuítas, a Travessa Marechal Isidoro Lopes até o encontro com a Rua da Emancipação
III – Setor C – de Controle da Ocupação 2: tem como função a manutenção da volumetria e da ambiência das quadras fronteiras ao bem, de maneira que se possa fazer uma transição entre o bem tombado e o restante da cidade de forma adequada à relação espacial estabelecida por sua posição no outeiro, que conforma o interflúvio entre os 2 (dois) ribeirões que circundam o centro histórico, equivalendo aos 3 (três) quarteirões situados imediatamente em frente ao bem que são delimitados, respectivamente, pelas seguintes vias: Rua da Matriz, Rua Domingos de Pascoal, Rua Joaquim Santana e Travessa Marechal Isidoro Lopes (quarteirão 1); Rua Joaquim Santana, Travessa Marechal Isidoro Lopes, Rua Nossa Senhora do Rosário e Rua Domingos de Pascoal (quarteirão 2); e Rua Nossa Senhora do Rosário, Rua Domingos de Pascoal, Rua Siqueira Campos, Rua Boa Vista e Largo dos Jesuítas
Próximo texto neste blog nos atentaremos a aprofundar as práticas patrimoniais dos órgãos federai e estaduais e como ao longo dos anos a identidade e a salva guarda foram deixando o protagonismo na cidade e os motivos das desmarcações protetoras estabelecidas perderam sua força e importância ao longo destas últimas décadas, além de aprofundar as relações culturais, turísticas e da especulação imobiliária que resultaram nesta ameaça que o centro antigo se encontra hoje.
Referências:
Angelica Brito Silva- De aldeamento à cidade: o centro histórico de Embu das Artes
Angela MARIA Arena- Patrimônio Arquitetônico e Urbano: reflexão sobre os parâmetros de intervenção e sua prática nas edificações protegidas do centro histórico de Embu das Artes
Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional)









