Patrimônio: Herança e legado – por Z’Figueiredo

fotografia: Ogum – Os Orixás do Candomblé – obra de Z’Figueiredo
A pauta das discussões sobre Embu das Artes foi recentemente invadida por um tema que nos impõe uma reflexão tão ampla quanto necessária, se não quisermos perder definitivamente o bonde da história. É preciso considerar que essa necessidade tem desfilado inúmeras vezes diante de nós e sequer temos sido capazes de vê-la passar — quanto mais de lhe atribuir a relevância que possui. Trata-se de algo cujo valor não cabe na palavra que o nomeia — patrimônio.
Quando falamos em patrimônio, estamos diante de um conceito muito mais amplo do que a ideia imediata de bens, propriedades ou riquezas acumuladas. Em seu sentido mais profundo, patrimônio é aquilo que recebemos, reconhecemos como portador de valor e consideramos digno de ser preservado e transmitido. Por isso, a palavra estabelece uma ponte entre três tempos: aquilo que veio antes de nós, aquilo que fazemos com isso no presente e aquilo que entregaremos aos que vierem depois.
Tal preocupação deveria ter nascido nos meandros dos setores culturais do município, entre aqueles a quem foi atribuída a função de zelar pelas raízes que sugam da história a seiva que sustenta nossa identidade. No entanto, foi um grupo de jovens artistas que levantou essa bandeira, de forma mais barulhenta do que talvez fosse aconselhável. Mas, quando o silêncio se prolonga demais, algum excesso de barulho pode ser necessário para rompê-lo.
Não podemos, entretanto, permitir que o barulho provocado por essa discussão nos impeça de ouvir aquilo que realmente importa. Embu das Artes já perdeu tempo demais transformando divergências em divisões e diferenças de opinião em trincheiras. Se o patrimônio pertence a todos, sua defesa não pode começar separando aqueles que deveriam se unir para preservá lo. Não se trata de abandonar convicções ou ideologias, mas de impedir que suas diferenças ergam barreiras ao interesse coletivo.
Patrimônio é o conjunto de bens, lugares, práticas, conhecimentos, manifestações, memórias e elementos naturais aos quais indivíduos ou comunidades atribuem valor suficiente para reconhecer neles uma herança recebida, uma referência de identidade e uma responsabilidade de transmissão às gerações futuras.

É uma herança à qual atribuímos valor, mas não é necessariamente aquilo que sobreviveu ao tempo. Existem objetos muito antigos sem importância para uma comunidade e coisas bastante recentes que adquiriram grande significado coletivo.
Uma velha construção, por exemplo, pode ser apenas uma construção antiga. Mas, se nela uma comunidade reconhece acontecimentos importantes de sua história, determinada técnica construtiva, uma expressão artística ou parte de sua identidade, ela passa a possuir uma dimensão patrimonial.
Quando falamos em patrimônio histórico ou cultural, pensamos sobretudo em coisas que podem ser fisicamente preservadas: igrejas, palácios, monumentos, esculturas, pinturas, documentos, objetos arqueológicos e construções urbanas.
É aquilo que chamamos de patrimônio material.
Mas não é só a matéria que transforma algo em patrimônio e justifica sua preservação; são seus valores históricos, artísticos, religiosos, sociais, afetivos ou simbólicos.
O conceito de patrimônio é ainda mais amplo. Se aquilo que realmente importa é o significado transmitido, existem patrimônios que não podem ser guardados em museus.
Como guardar fisicamente uma dança?
Como colocar dentro de uma vitrine uma maneira de cantar?
Como tombar uma técnica artesanal, uma celebração, uma tradição oral ou um conhecimento transmitido de geração em geração?
É essa a importância do conceito de patrimônio cultural imaterial: práticas, conhecimentos, celebrações, expressões e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua cultura.

Nesse caso, preservar não significa necessariamente impedir mudanças. Isso seria impossível, porque uma manifestação cultural viva se transforma juntamente com as pessoas que a praticam.
Surge então uma distinção muito importante entre conservar e salvaguardar.
Um quadro pode ser conservado. Uma construção pode ser restaurada. Uma dança precisa continuar sendo dançada. Uma língua precisa continuar sendo falada. Uma técnica precisa continuar sendo praticada e ensinada. Uma celebração precisa continuar fazendo sentido para aqueles que a realizam.
Portanto, no patrimônio imaterial, preservar significa sobretudo criar condições para a continuidade da transmissão.
Há ainda o patrimônio natural, constituído por paisagens, formações naturais, ecossistemas e outros elementos aos quais reconhecemos valor ambiental, científico, estético ou cultural. Também eles integram uma herança que recebemos sem ter criado e cuja preservação passa a ser responsabilidade daqueles que a recebem.
Poderíamos falar ainda de patrimônio familiar, coletivo e de outras dimensões que o conceito abriga. No plano coletivo, porém, o patrimônio passa a representar experiências compartilhadas por grupos, comunidades ou sociedades inteiras.
Patrimônio e memória caminham juntos. Ao preservar determinados lugares, objetos, práticas e conhecimentos, uma comunidade não preserva apenas coisas: preserva referências por meio das quais reconhece sua própria trajetória. É também nelas que encontra parte daquilo que lhe permite saber de onde veio e reconhecer aquilo que a distingue.
E aqui surge uma questão fundamental: quem decide o que merece ser chamado de patrimônio?
Durante muito tempo, essa decisão esteve concentrada principalmente nas mãos do Estado, das instituições culturais e dos especialistas. Isso contribuiu para preservar bens importantíssimos, mas também produziu distorções.
Palácios foram preservados enquanto moradias populares desapareceram. Obras das elites receberam proteção enquanto manifestações de grupos socialmente marginalizados foram ignoradas. Monumentos aos vencedores foram conservados enquanto a memória dos vencidos frequentemente permaneceu sem representação. Por isso, a compreensão
contemporânea de patrimônio passou a valorizar cada vez mais a participação das próprias comunidades.
Apresentamos estas considerações gerais para fundamentar uma estratégia capaz de transformar a preocupação com o patrimônio em ação. Mas, se patrimônio é aquilo que uma comunidade reconhece como parte de sua herança, talvez a discussão que agora se abre deva começar por uma pergunta: o que, em Embu das Artes, reconhecemos como nosso patrimônio?
Respondê-la não é tarefa de um grupo, de uma ideologia, de um governo ou apenas dos especialistas. É uma reflexão que precisa envolver aqueles que receberam essa herança, aqueles que hoje respondem por ela e aqueles que ajudarão a decidir o que será transmitido às próximas gerações.
É preciso começar, e começar logo. Talvez já não seja possível recuperar tudo aquilo que o tempo e a nossa desatenção levaram consigo. Mas ainda podemos decidir o que não permitiremos que se perca.
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Os Orixás do Candomblé & Reverberações (Z’Figueiredo e Mestre Carlos Caçapava):
no ano de 2022, o escultor Z’Figueiredo expôs no Centro Cultural Mestre Assis (Embu das Artes) as ruínas de sua obra Os Orixás do Candomblé, onde também lançou sua autobiografia A Saga De Um Só. Mestre Carlos Caçapava, a convite de Z’Figueiredo, realizou uma apresentação musical na exposição, com as músicas do seu projeto Reverberações, que é apresentada em três vídeos.








