A Origem Colonial de Embu das Artes: A Hipótese da Sucessão de Maniçoba em M’Boy (1554) – por Marcel Moreno

A historiografia tradicional costuma fixar os marcos coloniais de Embu das Artes no século XVII através dos documentos históricos da época, apresentando uma grande vastidão de informações e os caminhos que levaram M’boy a consolidação da redução jesuíta. No entanto, uma das teses historiográficas mais relevantes sobre a origem do município desenvolvida e defendida pelo historiador Moacyr de Faria Jordão, recua esse cronograma e perspectiva para o próprio ano de fundação de São Paulo ainda em 1554.
Segundo o levantamento de Moacyr de Faria Jordão em sua obra “o Embu na história de São Paulo”, a ocupação jesuítica na região remonta a 1554. A hipótese sustenta que o antigo povoado de M’Boy (ou Bohi) não nasceu de forma isolada, mas sim como a sucessora direta da primeira fundação jesuítica fora do planalto de São Paulo de Piratininga, chamada Maniçoba.
De Maniçoba a M’Boy
Maniçoba foi um povoamento pré-existente e ponto estratégico de entrada para o sertão paulista, cujos indígenas foram reorganizados sob as diretrizes catequéticas dos padres da Companhia de Jesus entre 1553 e 1554. Com o avanço das missões e os conflitos territoriais da época, o núcleo missionário de Maniçoba teria sido transferido e reorganizado na região do M’Boy , decorrente da destruição da mesma por bandeirantes e grupos étnicos indígenas rivais. Essa dinâmica transformaria M’Boy na primeira missão sucessora de Maniçoba após a consolidação de São Paulo de Piratininga.
Está revisão cronológica e contestada a favor e contra na perspectiva historiográfica, posiciona Embu das Artes no ciclo inicial da presença jesuítica e colonial no Brasil quinhentista que abrange o (século XVI), e não apenas como um entreposto quinhentista tardio ou do século XVII sob a perspectiva de terras doadas, mas buscando indícios de um primitivo mais evidente, na origem da construção identitário do território.
O trabalho de Jordão, portanto, preenche lacunas históricas provocadas pela perda de registros jesuíticos ao longo do período pombalino, porém se utilizando de uma carta de 1553, sob escrita do irmão Pero Correia à Coroa e aos Padres maiores, indicando este evento de destruição da redução de Maniçoba, trazendo um exercício importante de reconhecimento de M’Boy/Embu das Artes não apenas como um mero anexo colonial, mas como um nó geográfico e cultural decisivo desde os primeiros anos da colonização de São Paulo.
Importante considerar que a hipótese de Moacyr de Faria Jordão, em sua obra “ O Embu na história de São Paulo” é um trabalho que traz evidências e hipóteses, principalmente sobre as origens de Embu além da doação das terras para os Jesuítas no Século XVIII, também buscando entender o próprio comportamento das primeiras missões jesuítas no entorno, conhecido como o cinturão jesuíta.
A carta em questão foi escrita pelo Irmão Pero Correia em 18 de julho de 1554, enviada de São Vicente ao Padre Brás Lourenço, Tratando-se de um dos mais importantes registros documentais sobre os primeiros agrupamentos catequéticos do interior paulista, registrando os movimentos populacionais indígenas no planalto e o esvaziamento/desmontagem da povoação de Maniçoba (localizada na região entre os atuais municípios de Itu e Sorocaba ou no próprio planalto paulista.
Nesta correspondência, Pero Correia relata como os padres jesuítas (com destaque para o Padre Manuel da Nóbrega) atuaram na organização e posterior transferência e dissolução dos agrupamentos indígenas do interior, direcionando os nativos para a recém-fundada povoação de Piratininga (São Paulo) e para outros aldeamentos. O trecho correspondente da carta de 18 de julho de 1554 onde Pero Correia aborda o contexto de Maniçoba, as dificuldades do sertão e o processo de reunião e dispersão dos indígenas no planalto:
«…Depois que o Padre Manuel da Nóbrega subiu à serra [Piratininga], trabalhou por ajuntar os índios em povoações para os poder melhor doutrinar. E indo à Maniçoba, que é pelo sertão dentro obra de vinte léguas de Piratininga, achou os índios dispersos e em guerras uns com os outros.
Vendo o Padre o pouco fruto que ali se podia fazer por estarem os indígenas divididos e ameaçados pelas investidas e guerras dos Carijós, assentou que se des fizesse aquela povoação (de Maniçoba), trazendo os que quiseram vir para a povoação de Piratininga e dispersando-se os demais por suas terras e parentescos.
Assim se desfez Maniçoba, e os filhos e famílias de muitos daqueles índios foram recolhidos para o ensino da Doutrina no Colégio e Povoação de São Paulo de Piratininga, onde agora temos a maior força de gente reunida e submissa à Fé.
Importante considerar que a tese trazida por Jordão e sua audaciosa construção da ideia primitiva de Embu e suas origens, partem ainda hoje de um debate historiográfico na cidade, principalmente na discordância tais como o Museu de Arte Sacra dos Jesuítas, com o trabalho de Angélica Brito pela USP, onde foca nos documentos de doação da terras de M’boy aos Jesuítas, Pedro Saturnino, que foi um importante historiador da cidade, porém aceito no caso de outros trabalhos como de Ivan Pereira Martins, pela Puc-SP, sobre o período colonial em Embu , considerando a hipótese de Jordão entre outros.
Outubro 2026
Marcel Moreno














